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O parque temático do bem


Texto de Luiz Felipe Pondé publicado originalmente na Folha de S.Paulo

POR QUE existem guerras? Porque gostamos de matar. Resposta pouco simpática, mas definitiva.

Penso como o crítico literário norte-americano Edmund Wilson (século 20): as guerras não são causadas primariamente por razões políticas ou econômicas, estas são apenas o que na filosofia chamamos de “causas ocasionais” (isto é, a oportunidade que aparece para realizarmos as verdadeiras causas primárias de nossas atitudes).

A verdadeira causa primária é biológica: gostamos de matar e pronto.
O governo britânico lançou na mídia imagens de seus aviões bombardeando tanques das forças pró-Gaddafi na Líbia. Imagens como essas dão crédito para o marketing moral e político do Reino Unido: “Olhem como não matamos civis, somos legais”.

Perguntado certa feita sobre a morte de civis em combate, o primeiro-ministro de Israel Bibi Netanyahu teria dito “Alguém perguntou aos britânicos quantos civis alemães mataram em seus bombardeios?”.

Todo mundo sabe como guerra é, mas hoje em dia querem dizer que guerra pode ser combatida puxando o cabelo do inimigo. O mundo virou um “parque temático do bem”.

O marketing é a ciência definitiva do início deste século. Se quisermos entender a política e a moral, devemos voltar nossos olhos para o marketing e não mais para a sociologia ou para a ciência política. Estas são ciências caducas para as sociedades contemporâneas.

Desde o século 18 a filosofia política, em grande parte, virou conversa de “teenager”. Coisas como “o homem é bom e a sociedade o perverte” é conversa para boi dormir.

Sabe-se desde as cavernas que a vida moral comporta um tanto de hipocrisia, sem a qual seríamos obscenamente amorais. Mas o problema é que, desde Rousseau, a hipocrisia contaminou o mundo da filosofia política. Por quê? Porque ele criou a política para o mundo como parque temático do bem.

É ridículo ver como a classe intelectual, artística, e muitos profissionais da mídia se acham uma reserva moral da sociedade. Hábito nefasto porque corrói o pensamento público desde a raiz. Faz de cada um de nós um marqueteiro de nosso próprio pensamento.

Intelectuais, artistas e jornalistas aderiram a todas as diferentes formas de totalitarismos desde o século 18. Mas não todos, graças a Deus e a coragem de alguns de resistir às glórias de fazer parte da torcida e do rebanho.

Mas a mentira social não é privilégio da elite intelectual de um país. Se René Descartes, filósofo francês do século 17, disse que a razão foi dada a todos os homens em “quantidades iguais”, deveríamos acrescentar, mais ao modo de outro filósofo francês do século 17, Blaise Pascal, que o pecado, sim, foi dado a todos em “quantidades iguais”.

Aliás, suspeito que a razão não foi dada em “quantidades iguais” a todos os homens, mas, sim, o pecado. Nada disso significa que devemos bater palmas para as guerras. Significa que devemos resistir à praga do modo “teenager” de pensar e dizer a verdade: gostamos de matar.

O argumento de Rousseau segundo o qual temos um “sentido empático” para o sofrimento alheio (isto é, sentimos junto com o outro seu sofrimento e daí agimos em defesa dele) é uma piada de mau gosto. Só reagimos à violência quando ela põe a nós mesmos (ou nossos interesses) em risco.

Sabe-se muito bem que filhos e cônjuges de pessoas que ajudaram vítimas do nazismo (ou qualquer outro sistema de violência) detestavam a atitude moral do “idiota da família” que colocava o cotidiano da família em risco para ajudar estranhos. Sempre que situações como essas se repetirem, a maioria esmagadora das pessoas fará o mesmo. E odiará quem não fizer.

Muita gente sai gritando quando isto é dito, movida apenas, em segredo, pela sagrada mentira social que sustenta a imagem pública de nós mesmos.

Genocídio é um horror, mas é a constante da humanidade e não a exceção. Preste atenção: quantos períodos históricos existiram sem algum genocídio? Nenhum ou talvez alguns minutos.

Cada um de nós está sentado sobre ossos. Ganhamos tecnologia, dinheiro, ciência e espaço com guerras. O gosto de sangue é o motor da história.

Pavablog

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A fisgada da saudade – Rubem Alves


” ELA FOI RÁPIDA, LEVANTOU a mão e perguntou.

“O senhor acredita em Deus?”

A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a existência de Deus, mas os descaminhos da educação. Mas logo compreendi. Ela não havia ido ali para aprender sobre escolas, professores e alunos. Ela trouxera sua dor pronta e a levava por onde quer que andasse. Não era pergunta de catecismo. Era coisa que lhe doía na carne e na alma, espinho nas vísceras.

Pois não é quando a vida dói que balbuciamos o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, acreditando, dorme sem sobressaltos.

Riobaldo sabia e dizia: “Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas… Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

Lembrei-me de R.S. Thomas, pastor e poeta numa pobre e rude comunidade rural da Irlanda. Pastor, devia saber. Porque não é pra isso que os fiéis vão à igreja, pra ouvirem do padre ou pastor que Ele existe? Mas ele de Deus só ouvia o silêncio: “Nenhuma palavra veio ao homem ajoelhado. Ele só ouviu a canção do vento. Ou o barulho seco de asas que não via, não eram anjos, eram morcegos no alto do forro da igreja. Ele não virá mais…” Nesse “Ele não virá mais…” estava toda a sua dor.

Agora, quando sinto a fisgada, busco o socorro dos poetas. Se eu tivesse me lembrado, minha resposta teria sido outra. Eu teria repetido as palavras do Chico: “Oh, metade arrancada de mim… Leva o vulto teu / Que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu…”

Saudade é um vazio que dói, presença da uma ausência, lugar onde o amor se aninhou, mas agora o ninho está vazio…

Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que vai chegar ou a que arruma para o filho que nunca vai chegar?

Ela me perguntava se eu “acreditava”. Mas eu, como R.S.Thomas e o Chico, de Deus só tenho a nostalgia e a saudade.

Se eu tivesse me lembrado, eu simplesmente teria dito:

“Não, eu não acredito em Deus. Concordo com o poeta: Alberto Caeiro diz que não acredita em Deus porque nunca o viu. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo, e entraria pela minha porta a dentro dizendo-me: “Aqui estou”. Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos. Por isso se nos não mostrou.”

Não, não acredito em Deus. O que eu tenho é aquela dor chamada saudade… A Adélia sabia e sofria: “Eh saudade! De quê, meu Deus? Não sei mais…”

Deus é essa fisgada sem nome que sinto no coração. Ela tem hora certa para aparecer: no crepúsculo. Verso de Browning: “A gente vai andando solidamente pela rua e, de repente, um pôr-de-sol… E estamos perdidos de novo”.

“Por causa dessa dor sem nome eu acendo meus altares com poesia e música para colocar beleza no abismo escuro…”

Não, não acredito em Deus. Mas sinto a fisgada…

fonte: Folha de S.Paulo via Pavablog

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Evangélicos x Ateus- Iguais em pólos opostos


Bem-vindo a um estranho mundo novo, onde ateus e evangélicos são mais  parecidos do que se poderia imaginar

Skye Jethani

Por razões óbvias, ateus e evangélicos, muitas vezes se encontram em lados opostos na batalha cultural travada no mundo. A ascensão do “Novo Ateísmo” veio através dos livros campeões de venda de Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Do outro lado, o ressurgimento dos “Evangélicos militantes”, representados nos EUA pelo Tea Party e em todo o mundo por vários outros grupos que misturam religião e política, inflamou as tensões entre os dois grupos.

Mas essa nova geração de ateus e evangélicos podem ter mais em comum do que gostariam de admitir.

Por exemplo, alguns membros do Novo Ateísmo fazem proselitismo de suas crenças com o fervor, em alguns casos até com a mesma fúria, que em nossa cultura são mais frequentemente associadas aos evangélicos. Desde a campanha publicitária internacional feita em ônibus que negavam a crença em Deus, chegando a eventos em universidades onde os alunos eram estimulados a trocar suas Bíblias por revistas pornográficas, alguns ateus não se contentam mais com uma abordagem do tipo “viva e deixe viver” quando se trata de religiosos. Pelo contrário, eles estão ativamente tentando “converter”, ou talvez a melhor palavra seria “desconverter”,  as massas.

Em outubro deste ano, Christopher Hitchens declarou a uma multidão na Universidade de Toronto, “Acho que a religião deveria ser tratada com zombaria, ódio e desprezo; e creio que estou certo.” Ele afirmou ainda: “Se eu dissesse a um protestante, um pentecostal ou um muçulmanos, que pelo menos eu respeito a crença deles, eu estaria mentindo”

Claro que nem todos os ateus concordam com essa abordagem “evangelística” de Hitchens.

Paul Kurtz, um ateu mais tradicional, preocupa-se com a retórica de Hitchens, Dawkins e de outros, pois isso poderá fazer o movimento retroceder: “Eu os considero ateus fundamentalistas. Eles são anti-religiosos, mas infelizmente eles são maldosos. Sem dúvida são bons ateus e pessoas muito dedicadas que não acreditam em Deus. Mas quando alguém passa por essa fase agressiva e militante do ateísmo, acaba fazendo mais mal do que bem”, afirma Kurtz.

Eu não consigo deixar de ver a ironia disso. Parece que alguns dos novos ateus estão incorporando as mesmas características que muitas vezes condenaram nos evangélicos: intolerância, dogmatismo, até mesmo a tendência da igreja em gerar divisão. Parece que tudo pode ser transformado em uma religião, até mesmo a anti-religião.

Mas não devemos ter prazer em apontar o cisco no olho dos ateus, enquanto uma trave parece continuar firmemente alojada em nossos próprios olhos.

A crítica mais comum feita aos ateus é que eles estão procurando viver “acima de Deus”, sem se importar com a existência ou os mandamentos de uma divindade. O problema é que os ateus trocaram a visão teísta do universo pela visão humanista. Ou seja, um mundo no qual o propósito da vida e a verdade são definidos apenas pelo indivíduo ou, na melhor das hipóteses, pela sua comunidade. Essa postura arrogante em relação a Deus é a essência do pecado evidenciado em Lúcifer, Adão, os moradores de Babel, e todos os outros que procuram ter algum poder sobre o Criador.

A solução, apontam muitos dos que possuem uma visão evangélica do mundo, é abraçar uma vida humilde, “sob Deus”, que submete-se aos mandamentos divinos.

Esta divisão entre viver “acima de Deus” ou “sob Deus” é o que tem gerado um grande número de conflitos culturais no tocante ao casamento homossexual, aborto, pesquisa com células-tronco, exibição pública de símbolos religiosos, oração nas escolas, e até a decisão de manter o nome de Deus nas notas de dinheiro e na Constituição Federal.

Mas em suas tentativas de fazer o país inteiro obedecer “os mandamentos de Deus”, os evangélicos não tem trocado o Evangelho de Jesus Cristo por um evangelho da moralidade? Nesse processo de imposição, muitos evangélicos serão culpados do mesmo erro que atribuem aos ateus. Ou seja, a busca de uma posição de autoridade acima de Deus!

Deixe-me explicar com alguns exemplos.

Logo após os ataques terroristas de 11 setembro de 2001, um líder evangélico americano fez uma declaração impensada. Ele foi obrigado posteriormente a desculpar-se:

“Eu realmente acredito que os pagãos, os defensores do aborto, as feministas, os gays e as lésbicas estão constantemente tentando fazer com que seu estilo de vida alternativo acabe secularizando a América. Eu aponto o dedo na cara deles e digo: ‘você contribuíram para que isso acontecesse’ “.

Infelizmente, esses tipos de julgamentos não são raros. Outros líderes fizeram comentários semelhantes após o furacão Katrina, em 2005, e também depois do grande terremoto no Haiti no início deste ano. Segundo a lógica desses discursos, presume-se que a maneira de prevenir ataques terroristas e catástrofes naturais é ganharmos a afeição e proteção do Todo-Poderoso através de um comportamento moral, orações diárias, defesa dos valores tradicionais da família e frequencia na igreja.

Esta abordagem de “vida sob Deus” também se aplica a indivíduos. Inúmeros adolescentes evangélicos têm aprendido que devem absterem-se de sexo antes do casamento para que Deus abençoe sua vida sexual após o casamento. Os pais evangélicos defendem que uma educação “bíblica” certamente resultará em filhos obedientes e de bom comportamento moral. Já aconselhei um empresário de minha igreja que estava desesperado. Ele acreditava que se deu generosamente para a obra de Cristo, Deus tinha obrigação de prosperar a sua empresa. Ele deu, mas, aparentemente, Deus não o abençoou.

O problema dessa cosmovisão de “vida sob Deus”, além do fato óbvio de que ela não funciona, é estar baseada no medo e no controle, não no amor. O que leva muitas pessoas a adotar tal abordagem não é amor ao Criador, mas um desejo de controlar a Deus como um meio de sobreviver e de prosperar. Neste universo irreal, Deus se torna apenas um meio para chegar-se a um fim e não um fim em si mesmo. Algumas culturas antigas sacrificavam uma virgem no vulcão. O evangelicalismo conservador contemporâneo, com sua visão de “vida sob Deus”, difere muito pouco dessas tentativas humanas de controlar o divino. Porém,  agora através do ritual da moralidade e da manipulação dogmática dos outros.

A grande ironia é que, embora afirmando submissão a Deus, os defensores de uma “vida sob Deus” estão realmente buscando o controle através de sua religiosidade. Ore X, sacrifique y, evite Z, e as bênçãos de Deus estão garantidas. Este foi o erro dos fariseus, que tentaram reduzir Deus a uma fórmula controlável, previsível e até mesmo desprezível. Alguns evangélicos condenam os ateus por exaltarem-se acima de Deus, sem perceber que podem estar perigosamente perto do mesmo pecado, embora ele venha a se revelar de uma maneira mais piedosa.

Não ache que estou chamando todos os evangélicos de hipócritas. Eu sou evangélico, e apesar dos muitos problemas associados com esse termo, não o abandonei como alguns já fizeram. Além disso, há muitos de nós que reconhecem o perigo de trocar a mensagem do Novo Testamento por uma falsa mensagem de moralidade nacional.

Por isso, acredito que tanto os novos ateus (defensores da vida “acima de Deus”) e os evangélicos militantes (defendendo a vida “sob Deus”) possuem uma visão de mundo e valores muito mais parecidos do que qualquer um deles gostaria de admitir. De certa maneira, são como as duas faces da mesma moeda. É preciso estarmos atentos.

[Nota do tradutor: Embora escrito para um contexto norte-americano, a premissa é igualmente válida para alguns movimentos no Brasil]

Skye Jethani é editor-chefe da revista Leadership e autor de The Divine Commodity: Discovering a Faith Beyond Consumer Christianity[Descobrindo uma fé além do cristianismo consumista].

Fonte: Out of Ur

Tradução e edição: Jarbas Aragão no Pavablog

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Religião e cidadania


Ed René Kivitz

Igreja não vota. Igreja não faz aliança política. Igreja não apoia candidato. Igreja não se envolve com política partidária. Há pelo menos cinco razões para este posicionamento.

Primeira: o Estado é laico. Igreja e Estado são instituições distintas e autônomas entre si. É inadmissível que, em nome da religião, os cidadãos livres sofram pressões ideológicas. Assim como é deplorável que os religiosos livres sofram pressões ideológicas perpetradas pelo Estado. É incoerente que um Estado de Direito tenha feriados santos, expressões religiosas gravadas em suas cédulas de dinheiro, espaços e recursos públicos loteados entre segmentos religiosos institucionais. É uma vergonha que líderes espirituais emprestem sua credibilidade em questão de fé para servir aos interesses efêmeros e dúbios (em termos de postulados ideológicos e valores morais) da política eleitoral ou eleitoreira.

Segunda: o voto é uma prerrogativa do cidadão. Assim como os clubes de futebol, as organizações não governamentais, as entidades de classe, as associações culturais e as instituições filantrópicas não votam, também a igreja não vota. Quem vota é o cidadão. O cidadão pode ser influenciado, melhor seria, educado, por todos os segmentos organizados da sociedade civil, inclusive a igreja. Mas quem vota é o cidadão.

Terceira: a igreja é um espaço democrático. A igreja é lugar para todos os cidadãos, independentemente de raça, sexo, classe social e, no caso, opção política. A igreja é lugar do vereador de um lado, do deputado de outro lado, e do senador que não sabe de que lado está. A igreja que abraça uma candidatura específica ou faz uma aliança partidária, direta e indiretamente rejeita e marginaliza aqueles dentre seu rebanho que fizeram opções diferentes.

Quarta: a igreja não tem autoridade histórica para se envolver em política. Na verdade, não se trata apenas de uma questão a respeito da igreja cristã, mas de toda e qualquer expressão religiosa institucional. A mistura entre política e religião é responsável pelos maiores males da história da humanidade. Os católicos na Península Ibérica e em toda a Europa Ocidental. Os protestantes na Índia. Os católicos e os protestantes na Irlanda. Os judeus no Oriente Médio. Os islâmicos na Europa e na América. Todos estes cometeram o pior dos crimes: matar em nome de Deus. Saramago disse com propriedade que “as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana”.

Quinta: o papel social da igreja é profético. Quando o governo acerta a igreja aplaude. Quando o governo erra a igreja denuncia. Quando a autoridade civil cumpre seu papel institucional a igreja acata. Quando a autoridade civil trai seu papel institucional a igreja se rebela. A igreja não está do lado do governo, nem da oposição. A igreja está do lado da justiça.

Todo cristão é também cidadão. Todo cristão deve exercer sua cidadania à luz dos valores do reino de Deus e do melhor e máximo possível da ética cristã, somando forças em todos os processos solidários, e engajado em todos os movimentos de justiça.

Comparecer às urnas é um ato intransferível de cidadania, um direito inalienável que custou caro às gerações do passado recente do Brasil, e uma oportunidade de cooperar, ainda que de maneira mínima, na construção de uma sociedade livre, justa e pacífica.

fonte: site da  Ibab

Via Pavablog

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Abel


CARO LEITOR, sou um pobre de espírito. Não daquele tipo que herdará o reino dos céus, como afirma Jesus no “Sermão da Montanha”. Não há lugar pra gente como eu no reino dos céus. Por uma razão simples: não amo ninguém mais do que a mim mesmo. E isso é mortal. Sempre foi. Os mentirosos é que tentam dizer o contrário. Não partilho da nova “ciência do egoísmo”, essa que se traduz em livros e revistas que buscam “novas formas de espiritualidade” centrada no amor próprio. Ou nessa coisa horrorosa chamada “autoestima”.

Tampouco fiz de mim um budista light, desse tipo que parasita as religiões orientais com a intenção de inventar uma espiritualidade que sirva ao clássico egoísmo moderno, numa salada mista de energias hindus com Jung barato. Antes de tudo, recuso o budismo light por um mero senso do ridículo que habita essas formas mesquinhas de espiritualidade.

Com isso quero dizer que não trocaria o reino dos céus por alguma forma quântica de paraíso egoísta, ao sabor da espiritualidade de livrarias de aeroporto do tipo “O Efeito Sombra”, cujo subtítulo é “Encontre o Poder Escondido na sua Verdade”, dos “guias espirituais” Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson, perfeito para almas superficiais amantes de toda forma de espiritualidade mesquinha.

O que é uma espiritualidade mesquinha? Fácil responder essa. Espiritualidade mesquinha é, antes de tudo, uma forma de crença que deforma a face do crente, iluminando seus caninos ocultos. Aquela que sempre medita com o objetivo de nos tornar mais poderosos e bem-sucedidos. Essa praga espiritual está em toda parte porque, simplesmente, não conseguimos entender que, para salvarmos nossa vida, temos que perdê-la. Jesus tinha razão.

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A Internet está destruindo nossa mente?


Quando o autor Nicholas Carr iniciou as pesquisas para o livro que busca descobrir se a Internet está destruindo nossas mentes, ele restringiu seu acesso a emails e desativou suas contas no Twitter e no Facebook.

Seu novo livro “The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains” (“O que a Internet está fazendo com nosso cérebro”) argumenta que os últimos avanços da tecnologia nos tornou menos capazes de pensamento aprofundado. Carr se descobriu tão distraído que não podia trabalhar no livro enquanto estava conectado.

“Eu descobri que minha incapacidade de me concentrar é uma grande deficiência”, disse Carr à Reuters.

“Então, abandonei minhas contas no Facebook e no Twitter e reduzi o uso de email de modo que eu apenas checava algumas vezes por dia em vez de a cada 45 segundos. Descobri que esses tipos de coisas realmente fazem a diferença”, afirmou ele.

Depois de inicialmente se sentir “perdido” por sua súbita falta de conexão online, Carr afirmou que após algumas semanas foi capaz de se concentrar em uma tarefa por um período sustentado e, felizmente, conseguiu terminar seu trabalho.

Carr escreveu um artigo para a revista Atlantic Magazine em 2008 em que trouxe a público a famosa dúvida “O Google está nos tornando estúpidos?” e resolveu estudar mais fundo como a Internet altera nossa mente.

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Porque escrevo sobre religião


Rubem Alves

UMA LEITORA ME perguntou: “Por que é que você, professor universitário, escritor, gasta tanto tempo com essas coisas da religião?” Ela pensava que eu, havendo lido Marx, Freud e Feuerbach, deveria dar um uso mais científico ao meu tempo e ao meu pensamento.

Minha resposta é simples: gasto o meu tempo com os sonhos das religiões porque, como disse Shakespeare, nós somos feitos de sonhos. A história é feita com sonhos. Todas as coisas materiais que fazem a vida da civilização são feitas com sonhos. Escrevo sobre a religião num esforço para acordar os que dormem.

Lembro-me da propaganda de um carro que vi, faz muitos anos, numa revista americana: era um conversível vermelho, sem capota, parado num bosque. Não há ninguém no carro, e as duas portas estão abertas.

A sedução – o motivo comercial para seduzir o leitor a comprar – se encontra precisamente naquilo que não se encontra na cena, mas apenas na imaginação. Se as duas portas estivessem fechadas, a mensagem seria simplesmente o carro vermelho sem capota. Se só a porta do motorista estivesse aberta, a imaginação completaria a cena: ele deve estar atrás de uma árvore fazendo xixi.

Mas as duas portas foram deixadas abertas. As pessoas que ocupavam o carro estavam com pressa. A imaginação não tem alternativas, as imagens se impõem: um homem e uma mulher. Onde estarão eles? Fazendo o que? Bem dizia Bachelard que aquilo que se vê não pode se comparar com aquilo que não se vê. Quem bolou essa propaganda genial sabia que a alma é feita de sonhos.

Veblen, economista, também conhecia a alma humana e por isso declarou que não compramos “utilidades”, coisas práticas, materiais. Compramos símbolos.

Isso que vou contar aconteceu no tempo em que a televisão fazia propaganda de cigarros. Cena silenciosa, sem uma única palavra: um bosque de pinheiros… Eu amo a natureza, amo os pinheiros, o perfume da sua resina. Os pinheiros cedem lugar a um regato de águas frias e cristalinas que corre sobre pedras. Eu também amo os regatos de águas frias e cristalinas. Uma campina verde florida.

Minha imaginação sugeriu logo que deveria ser capim gordura com o seu perfume único o que me levou para a minha infância em Minas. Cavalos selvagens em galope, pelo negro brilhante. Estava certo o presidente João Batista Figueiredo quando disse que o cheiro dos cavalos suados era melhor que o cheiro de gente suada. Leonardo da Vinci declarou que os cavalos são os animais mais belos depois dos homens. Cheguei a imaginar que seria possível produzir um perfume másculo extraído do suor dos cavalos. Nenhuma mulher o resistiria!

Aí entra o rosto de um vaqueiro, maxilar de noventa graus, barba de um dia por fazer -homem que é homem não se barbeia todo dia, isso é coisa de executivo-, com um cigarro entre os dedos, estilo Humphrey Bogart e as palavras, as únicas palavras: “Venha para o mundo de Marlboro!” Não, ninguém está falando em fumar! Está se falando de um mundo de pinheiros, regatos, campinas, cavalos -tudo isso faz parte do sonho que mora nas espirais de fumaça da imaginação…

O conversível vermelho com as duas portas abertas e o mundo de Marlboro pertencem ao mundo das fantasias religiosas. São sacramentos. Porque sacramentos são todas as coisas feitas com uma mistura de matéria e símbolos.

Você entende agora porque eu penso e escrevo sobre religião?

via site da Ibab

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