Arquivo para categoria Reflexões

10 datas em que o mundo já acabou


Anúncios

Deixe um comentário

Teólogos tradicionais questionam a existência de Adão e Eva e pedem uma fé para o século 21


Agência Pavanews, com informações de NPR e BioLogos

An engraving depicting Adam and Eve in the Garden of Eden, by Albrecht Durer, 15th century.

Pesquisas do Instituto Gallup e do Pew Research Center afirmam que quatro em cada 10 americanos acreditam na existência literal de Adão e Eva. Esta é uma das crenças  centrais de grande parte do cristianismo conservador, e dos evangélicos em particular.

No entanto, recentemente alguns estudiosos conservadores passaram a afirmar em público que já não conseguem acreditar no relato de Gênesis como antes. Perguntado sobre o fato de sermos todos descendentes de Adão e Eva, Dennis Venema, biólogo cristão da Trinity Western University, respondeu: “Isso vai contra todas as evidências genômicas que reunimos ao longo dos últimos 20 anos, então não é algo provável”.

A pesquisa do Genoma Humano

Venema diz que não há maneira de rastrear a humanidade até um único casal. Ele diz que com o mapeamento do genoma humano, está claro que os humanos modernos surgiram a partir de outros primatas – muito antes do período literal de Gênesis, que seria apenas alguns milhares de anos atrás. Dada a variação genética da população atual, ele diz que os cientistas não conseguem conceber uma população abaixo de 10.000 pessoas, em qualquer momento em nossa história evolutiva.

Para reduzir tudo a apenas dois antepassados, Venema explica: “Você teria que postular que houve uma taxa de mutação absolutamente astronômica que produziu todas estas novas variantes, em um período de tempo incrivelmente curto. Esses tipos de taxas de mutação não são possíveis”.

Venema é membro da BioLogos Foundation, um grupo cristão que tenta reconciliar fé e ciência. Esse grupo foi fundado por Francis Collins, um evangélico que atualmente lidera o Instituto Nacional de Saúde.

Venema faz parte de um grupo crescente de estudiosos cristãos que dizem desejar ver sua fé entrar no século 21. Outro é John Schneider, que até recentemente ensinou teologia no Calvin College, em Michigan. Ele diz que é hora de encarar os fatos: “Não houve Adão e Eva históricos, nem serpente, nem maçã, nem queda que derrubou o homem de um estado de inocência”.

“A evolução torna bastante claro que na natureza e na experiência moral dos humanos, nunca houve qualquer paraíso perdido”, diz Schneider. ”Acho que os cristãos têm um desafio, um trabalho grande em suas mãos para reformular algumas das suas tradições em relação os primórdios da humanidade.”

Dennis Venema indica o caminho que reconciliaria as posições: “Se ler a Bíblia como poesia e alegoria, assim como tem partes históricas, você poderá ver a mão de Deus agindo na natureza – e na evolução. Não há nada a temer fazendo isso. Não há com o que se preocupar É realmente uma boa oportunidade para termos uma compreensão cada vez mais precisa do mundo. A partir de nossa perspectiva cristã, esse é um entendimento cada vez mais preciso de como Deus nos trouxe à existência”.

Este debate sobre um Adão e Eva históricos  não é apenas mais uma disputa, pois parece estar dividindo a intelectualidade evangélica norte-americana.

“O evangelicalismo tem uma tendência a matar seus jovens talentos”, diz Daniel Harlow, professor de religião no Calvin College, uma escola cristã reformada que tem a queda literal de Adão e Eva como parte central de sua fé.

O Calvin College não aceitou ele ter escrito um artigo questionando o Adão histórico. Seu colega, o teólogo John Schneider, escreveu um artigo semelhante e foi pressionado a demitir-se após 25 anos trabalhando na faculdade. Schneider está vivendo agora de uma bolsa de pesquisa da Universidade Católica Notre Dame.

Vários outros teólogos bem conhecidos de universidades cristãs têm sido forçados a se demitir por causa desse debate. Alguns veem um paralelo com um momento histórico anterior, quando a ciência entrou em conflito com a doutrina religiosa.

“A controvérsia da evolução hoje é um momento tão crucial quando o julgamento de Galileu”, diz Karl Giberson, autor de vários livros que tentam conciliar cristianismo e evolução, incluindo A Linguagem da C iência e da Fé, escrito em parceria com Francis Collins.

Giberson – que ensinava física no Eastern Nazarene College, entende que esse ponto de vista tornou-se muito desconfortável na academia cristã – e o questionamento de Adão e Eva é semelhantes ao que experimentou Galileu no século 17, quando desafiou a doutrina católica que afirmava que a Terra girava em torno do sol e não o contrário. Galileu foi condenado pela igreja e levou mais de três séculos para o Vaticano para expressar arrependimento por seu erro.

“Quando você ignora a ciência, acaba pagando caro”, diz Giberson. ”A Igreja Católica pagou um alto preço durante séculos por causa de Galileu. Os protestantes fariam muito bem se olhassem para esse fato e aprendessem com ele.”

Outros teólogos dizem que os cristãos não podem mais se dar ao luxo de ignorar as evidências do genoma humano e dos fósseis apenas para manter uma visão literal de Gênesis. ”Este assunto é inevitável”, diz Dan Harlow do Calvin College. ”Os evangélicos precisarão enfrentá-lo ou apenas enfiar a cabeça na areia. Se fizerem isso, perderão qualquer respeitabilidade intelectual que possuem.”

Albert Mohler, do tradicional Seminário Batista do Sul, explica: “No momento em que você diz ‘temos que abandonar nossa teologia para ter o respeito do mundo’, acaba ficando sem a ortodoxia bíblica e sem o respeito do mundo”.

Mohler e outros dizem que, se outros protestantes querem acomodar-se à ciência, não devem se surpreender se isso os fizer negar a fé.

Pavablog

Deixe um comentário

Jorge Bertolaso Stella: o humanismo de um pastor protestante


Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade.

São mestres na arte de demonizar o diferente. Fundamentalistas supostamente mais refinados, através de uma rigorosa análise teológica, qualificam irmãos da mesma tradição religiosa com rótulos absolutamente ultrapassados. Tal estratégia visa apenas aniquilar os supostos heterodoxos, alijando-os da instituição que tanto amam.

O outro grupo de fundamentalistas, mais popular e com forte penetração nas massas religiosas, não possui um discurso teológico tão “sofisticado” quanto o primeiro, mas através de uma forte presença midiática,
Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica doBhagavad Gita.aliada às inegáveis qualidades retóricas, arrebanha para si a opinião do vasto público religioso.

Tal realidade se faz presente em todos os grupos cristãos, do catolicismo-romano até a mais recente igreja neopentecostal.

Assim, nos dizeres do padre e sociólogo católico Pedro Ivo Oro, reproduzem o conhecido discurso de que “o outro seja o demônio”. O outro, no caso, é todo aquele que não se enquadra na suposta ortodoxia dominante, a saber: o seguidor de uma crença não cristã, o ateu, o agnóstico, o ecumênico, o simpatizante da teologia da libertação, o liberal, o neo-ortodoxo e etc.

Sabemos que a divergência no mundo das ideias não é apenas aceitável, mas é ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano. Como bem dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. No entanto, os fundamentalistas não encerram suas divergências no âmbito do pensamento, mas levam essas diferenças naturais ao ponto mais extremo, acabando, literalmente, com a vida de seus oponentes.

Diante deste triste quadro, é interessante trazer à memória a biografia de modernos líderes cristãos que trilharam um caminho visceralmente oposto ao citado acima. Este é o caso do saudoso Jorge Bertolaso Stella.

Italiano de Abadia, cidade localizada na província de Parma, nasceu em 1888, chegando ao Brasil com apenas três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. De origem católico-romana, abraçou o protestantismo de orientação reformada, «Eu defendo a ordenação da mulher.»tornando-se pastor evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comunidade mãe de todo o presbiterianismo paulista.

Sua formação intelectual é digna de nota. Teólogo formado, adquiriu real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico. Tornou-se especialista em línguas absolutamente complexas, como o basco e o etrusco. Não obstante seu apurado conhecimento nessas línguas, sua principal contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual brasileiro a dominar o sânscrito, milenar língua indiana.

Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do Bhagavad Gita, principal livro sagrado do hinduísmo. O trabalho de Stella foi além da tradução, contendo comentários históricos, lingüísticos e teológicos a respeito do clássico indiano. Seguindo esta linha, publicou vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Detinha, ainda, um amplo conhecimento sobre budismo e jainismo. Defensor de um verdadeiro diálogo interreligioso, Stella distinguia-se do evangélico padrão brasileiro. «Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo são intérpretes de Deus.»Sua visão das crenças não cristãs não era marcada pela tradicional apologética. Além de considerá-las como manifestações naturais da religiosidade humana, analisava as mesmas com o rigor acadêmico de um verdadeiro historiador da religião.

Mesmo não concordando com o ateísmo, respeitava-o como forma de pensamento, ressaltando que o caráter de uma pessoa independia de suas convicções religiosas.

Foi professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, localizado em São Paulo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Também participou de inúmeras comissões tradutoras da Sociedade Bíblica do Brasil. Como especialista em assuntos bíblicos, sua opinião a respeito da formação do cânon demonstra seu espírito científico e progressista. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos provenientes de outras culturas foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram inspiradas no conhecido Código de Hammurabi. Em suma, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. «Como fruto nutritivo do cristianismo apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista.»Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.

Além de importantes obras de teor teológico, filológico e historiográfico, Bertolaso Stella tinha como máxima divulgar seus pensamentos em breves opúsculos, quase todos publicados pela saudosa Imprensa Metodista. O importante não era manter-se restrito ao seleto círculo de teólogos, acadêmicos ou intelectuais, mas divulgar seu conhecimento para o verdadeiro público alvo de um ministro religioso, a igreja. Abordaremos, brevemente, alguns temas debatidos por Jorge Bertolaso Stella.

1 – Direitos da Mulher

A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, denominação a qual Bertolaso Stella esteve ligado até o final de sua vida, apenas admitiu mulheres ao oficialato pleno, isto é, presbiterato e pastorado, em 1999. No entanto, desde o início de sua vida pastoral, sua defesa em prol do ministério feminino foi uma marca distintiva. Sobre este assunto escreveu no livreto “A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação”, datado de 1974, os seguintes dizeres:

Eu defendo a ordenação da mulher para o santo ministério, sim, mulheres pastoras. Deus chama as mulheres para o ministério ou pastorado. Esse Ser Eterno escolhe a quem quer e quando quer para sua obra santa. É um erro pensar que Deus somente escolhe homens para o pastorado. Nós nunca demos à mulher o lugar que ela realmente merece. Preconceitos, estreiteza de mente e ignorância, muitas vezes têm impedido que ela exerça a tarefa de que é digna e capaz. A mulher em coisa alguma é inferior ao homem. A mulher é a natureza para significar que ela é tudo. No código indiano das Leis de Manu, encontramos esta expressão: a mulher é imagem da terra. Aquela gente, bastante antiga, já conhecia o valor da mulher.

2 – Transitoriedade de doutrinas e dogmas

Ao contrário da postura fundamentalista, Jorge Bertolasso Stella defendia que determinadas doutrinas são passiveis de revisão, devendo evoluir de acordo com o ser humano. Deus não seria estático:

Existem doutrinas, princípios e praxes que precisam de uma revisão, são obsoletos e tiveram razão de ser somente em determinada época. O volume não é pequeno e constitui uma carga pesada para a Igreja, que ameaça ir ao fundo como o navio, descrito no livro de Atos.

3 – Humanismo

Claras ideias humanistas são expostas no livreto Um Só Mundo, publicado em 1957:

A humanidade é uma só. Os mares, lagos, rios, montanhas, vales e outra qualquer coisa, não podem dividir o mundo em partes separadas. Essa separação existe somente na superfície. No fundo, tudo é igual. As conquistas são imorais. Tudo deve ser para todos. Há terra, ar, luz que constituem o ambiente e pertencem a qualquer criatura enquanto viver. Não é humano uma nação, uma família ou um indivíduo apossar-se de uma parte do mundo, de uma região ou de uma parte da terra e abandonar os outros seres, deixando-os na penúria, sem trabalho, sem terra para cultivar, semear e viver. Em regra, o que motiva a guerra, que é câncer da humanidade, é justamente a noção de pátria, nação e povo.

Encontramos no trecho acima uma clara crítica ao espírito nacionalista e xenófobo.

Os seres humanos constituem uma irmandade na face da terra. Não importa a cor da pele, costumes diversos pelo ambiente e mesmo tendências diferentes. Todos os homens são irmãos e por isso devem se amar, banindo o egoísmo e cancelando a guerra, que significa a destruição da grande família humana.

Leia o resto deste post »

Deixe um comentário

O homem entre as marés


Divino preconceito

Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil não falar sobre eles, sob o risco de acender a indignação de gente que habita com muita convicção cada um dos polos que se condenam.

Porém também é verdade que não elegemos os discursos polarizadores ao acaso; os assuntos que elegemos como polêmicos revelam muito mais sobre nós do que gostaríamos. Se você acha de fato importante saber e discutir em que ponto de um ser humano adulto outro ser humano adulto escolhe colocar o seu órgão sexual, na intimidade de seu quarto e em seu tempo livre; se é a esse tipo de investigação criativa que você está ponderando dedicar uma parte substancial do seu tempo, esse é problema sexual seu. Como uma vez aprenderam homens respeitáveis ao redor de uma mulher adúltera, o comportamento verdadeiramente inquietante é o que faz da sexualidade do outro uma bandeira e um problema para si mesmo. É aqui que jaz a verdadeira perversão.

Porém o problema com os discursos polarizadores é que aparentemente não há como apaziguar a tensão que produzem. Se você deixa de se pronunciar a respeito, nada de fato muda e a tensão permanece; se você escolhe se pronunciar, tudo que consegue fazer é atiçar a fogueira, demarcando e acentuando a distância entre os grupos antagonistas.

Eu mesmo tenho opiniões muito severas a respeito desse e de outros assuntos, e já achei que a mera exposição de minha iluminada opinião poderia contribuir para mais do que meramente acentuar o problema. Outros já pensaram como eu. Porém, como descobriu Pedro diante de um auditório de incircuncisos, nossas convicções podem muito bem ser redimidas – isto é, revistas – pelas nossas histórias.

O propósito desta nota é contar o que sei a respeito de um homem, Andrew Marin, e que sei porque já o vi contando essa história muitas vezes.

Andrew (americano, sorridente, atarracado, popular, desportista amador) foi até seus anos de ensino médio um cristão convicto e um homófobo militante, daqueles que se rebaixam sem hesitação à intimidação física e verbal. Não deve haver dúvida, do mesmo modo, de que Marin entendia essas duas vocações (seu cristianismo ardente e seu desprezo ativo pelos homossexuais) como manifestações de uma mesma paixão pela verdade.

Sua vida teria sido mais simples se na época de colégio seus três melhores amigos de infância (duas garotas e um rapaz) não tivessem confiado nele o bastante para fazerem, um a um e sem saberem um do outro, a mesma confissão: Andrew, posso te contar uma coisa? Por favor, não conte pra ninguém, mas eu sou gay.

Foi assim que, num intervalo de três meses, Andrew Marin encontrou-se pela primeira vez com seus três únicos amigos e, como bom cristão, cortou todo laço com eles. Perdeu-os porque eram homossexuais.

Marin mergulhou num estado de profunda e sinfônica perplexidade. Seu mundo havia sido miseravelmente subtraído debaixo de seus pés, e ele passou a requerer do seu Deus e da sua Bíblia uma explicação e uma solução. Ele queria de volta o mundo das suas seguranças anteriores, e exigia que Deus lhe revelasse uma razão, uma secreta justificativa para a tristeza que estava sentindo.

Deus não lhe deu uma resposta, mas o homem creu ouvir na escuridão:

– Andrew, o que você deve se perguntar é como devem ter se sentido os seus amigos, crescendo com você durante todos esses anos: os amigos que, sabendo que você se mostrava em tudo abertamente contrário ao que eles são e ao que representam, escolheram permanecer seus amigos.

Desta caverna emergiu um homem absolutamente notável. Marin decidiu que sua vida deveria servir de ponte entre dois discursos altamente incompatíveis, o dos conservadores evangélicos norte-americanos e o da exuberante comunidade homossexual de seu país. Ele refez o trajeto, pediu perdão a seus amigos e mudou-se para o bairro gay da sua cidade, Chicago, onde reside com a esposa há mais de dez anos. Ali Marin vive, permanece disponível e promove reuniões não-ortodoxas em lugares absolutamente não-ortodoxos, ao mesmo tempo em que organiza os movimentos de uma pequena mas ambiciosa fundação.

Tendo em vista a perene discussão a respeito de até que ponto a orientação homossexual é uma escolha ou um destino, Marin achou melhor subverter os raciocínios subjacentes e adotou como lema a frase O amor é uma orientação, que é também o título de seu livro. Para Andrew Marin, iluminado pelo que vê no sol dos evangelhos, o amor é que é, sem espaço para discussão e em todos os sentidos, uma inescapável orientação. Neste clima e neste momento da história isso implica que os cristãos devem amar formidavelmente e exuberantemente os homossexuais.

Mas na boca de Marin isto não se limita ao batido discurso de odiar o pecado e amar o pecador. Para começar, quando perguntado, Marin recusa-se a dar respostas simplistas e polarizadoras para as perguntas mais quentes que cercam a questão. Ele explica que aprendeu com Jesus a não dar respostas simples para questões complexas, e essa sua postura (precisamente como no tempo de Jesus) desperta por vezes a indignação de gente dos dois lados do muro.

Para muitos conservadores evangélicos, Marin é uma abominação e seu ministério é uma farsa porque, apesar de se apresentar como conservador, ele se recusa a admitir com todas as letras e enfatizar o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual é incontornavelmente pecaminosa e que não há conjuntura em que ela possa ser considerada aceitável diante de Deus e dos homens. Semelhantemente, para muitos na comunidade homossexual Marin é uma falso amigo e um propagandista infiltrado, porque apesar desse papo de amor ele se recusa a admitir com todas as letras o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual entre adultos é coisa legítima, íntegra e sã, que merece a celebração dos homens e as bençãos da igreja tanto quanto qualquer relação heterossexual.

Andrew Marin é esse homem que deixa-se queimar entre os extremos, lutando centímetro por centímetro para promover o diálogo sem contribuir para acentuar uma distância que como está já é paralisante. Marin tornou-se um gigante porque teve de fato um bom professor, e aprendeu com o Jesus dos evangelhos que um discurso polarizador não deve ser jamais alimentado. Todo discurso aplicado ao extremo (e os discursos tendem aos extremos) gera esterilidade, hostilidade e desumanização. A ferida dos ódios resultantes só pode ser estancada pelo remédio do amor – o amor que é uma orientação: ao mesmo tempo uma escolha e um destino.

E é de Marin a definição mais fulgurante de amor que jamais ouvi: amor, explica ele, é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados. Permita-me repetir: amar é prover expressões mensuráveis de comportamento não-condicionado. Proponho que façamos todos nós uma tatuagem muito visível e incômoda com essa frase; só depois de recitá-la solenemente para nós mesmos ganharíamos o direito de atirar a primeira pedra.

De que forma Andrew Marin dá evidência desse amor não-condicionado? Ele vive há uma década entre gente que não compreende e não tem ferramentas para compreender. Ele os defende diante de gente que os considera indefensáveis, e recebe a condenação dos que está defendendo porque acham que ele não está indo longe o bastante. Cada um a seu modo, os dois lados acham insuficiente a proposta de amor de Marin. Mas o maluco, o insensato, continua amando.

Nos Estados Unidos, cristãos que frequentam as passeatas gay costumam fazê-lo para levar cartazes que dizem coisas edificantes tipo DEUS ODEIA BICHAS ou VÃO ARDER NO INFERNO. Andrew Marin e seus amigos vão a essas passeatas com cartazes que dizem apenas I’M SORRY – e pedem a quem quiser ouvir desculpas por todo o ódio que já foi derramado sobre os homossexuais no nome daquele que nada tem a ver com o ódio.

Por trás dessa sua singeleza, dessa impertinência de Marin em amar o inimigo tido como o mais desprezível, espreita uma subversão ainda maior: a ousadia de sugerir que um cristão não deve ser capaz de extrair sua identidade de algo que não seja o amor. Para esse pequeno americano, não somos cristãos quando confessamos, quando escolhemos o mesmo adversário ou quando concordamos a respeito de alguma doutrina; somos cristãos enquanto afirmamos teimosamente, sempre em atos mais do que palavras, a supremacia do amor.

É claro que ninguém dá ouvidos ao cara, porque seu ministério é pequeno e sua proposta insensata. Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você aprovar a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você concordar com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação – e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.

Muito mais sobre Andrew Marin, sua história, seu ministério e sua sacrossanta insensatez, aqui (em inglês):
Love is an orientation

Bacia das almas

Deixe um comentário

ESPINHO NA CARNE E CARNE NO ESPINHO


Paulo disse que teve grandes visões e revelações espirituais—foi levado ao Paraíso e ouviu o que ninguém ouve e sabe contar—, e que por causa disso foi-lhe enviado da parte de Deus um mensageiro de Satanás para que o esbofeteasse, a fim de que o apóstolo não se ensoberbecesse com a grandeza das coisas que a ele estavam sendo reveladas.

Pediu a Deus três vezes para ficar livre daquele “espinho na carne”.

O Senhor, todavia, não o removeu, tendo apenas dito a Paulo “a minha Graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.

Que espinho era esse?

Muita gente boa já fez considerações sobre o assunto.

O espinho de Paulo já foi sua conjuntivite crônica, já foi a perseguição dos judaizantes, já foi o ter que trabalhar a fim de sustentar seu ministério, já foi o estilo calamitoso e desassossegado de vida que o acometeu, já foi a sua não aceitação pela Igreja de Jerusalém, já foi muita coisa…

No início da década de setenta, nos Estados Unidos, e depois na década de oitenta, no Brasil, o espinho de Paulo ganhou outro “diagnóstico”.

Li e ouvi pessoas tentando convencer o público do contrário. No auge da Teologia da Prosperidade, com seus líderes anunciando uma era na qual a fé rehma curava tudo e que quem não ficasse curado era porque não cria, o espinho de Paulo deixou de ser associado a qualquer forma de doença ou debilidade física ou financeira.

Paulo não podia mais ficar doente e só passava privações por deliberação própria. Gostava!

Virara o super-homem de Friedrich Nietzsche.

Nem o próprio Nietzsche acreditaria que Paulo se tornou o super-homem dos cristãos, superior ao super-homem de Zaratustra.

O fato é que Paulo, agora, não tinha mais permissão para adoecer.

Seria falta de fé.

Afinal, como poderia ele curar se estava doente?

Num mundo onde o poder é do homem, somente seres absolutamente sãos podem transmitir saúde.

Afinal, o dom não é da Graça, mas uma virtude desenvolvida pelo super-homem.

Assim, o espinho na carne de Paulo deixou de ser qualquer coisa anteriormente relacionada a ele, tornando-se, assim, qualquer coisa, menos uma doença física—psicológica ou afetiva, nem pensar!—, mas não foi identificado como nada objetivo. Apenas se sabia que Paulo tinha um “espinho na carne”, mas não devia ser tão “importante”, pois Deus não quis removê-lo…

Até mesmo a afirmação apostólica de que o espinho tinha finalidades terapêuticas não foi mais levada em consideração.
Paulo ensoberbecer?

Jamais!—bradam os santos mais santos que Paulo.

E, assim, vão desespinhando a Paulo por uma única razão: Para nós a Graça não basta e o poder não se aperfeiçoa na fraqueza!

Essa “graça” só basta como confeito ao bolo de nossas próprias virtudes.

Essa “nossa graça” não gera humildade e dependência ao Senhor, mas arrogância e autonomia em relação a Deus.

Esse “poder” só se aperfeiçoa como status atribuído ao sucesso das virtudes da “fé” obstinada e que chega onde quer porque assim determina.

Esse “poder” gera seres malévolos e essa “fé” pode até colocar o individuo onde ele quer, mas não o põe onde Deus deseja.

Para que se entenda o que aconteceu a Paulo não se tem que saber o que aconteceu com ele—mas em sua vida interior.
E para sabermos do que se trata, basta que olhemos para nós mesmos. Boa parte do tempo que se gasta tentando saber informações históricas sobre o “espinho histórico” de Paulo, rouba-nos o tempo da viagem para dentro de nós mesmos, onde o fenômeno se repete, ainda que exteriormente ele tenha outra cara, talvez diferente da de Paulo.

Há três princípios que precisam ser entendidos a fim de que se compreenda acerca do que o apóstolo está falando.

1. O princípio das polaridades:

Leia o resto deste post »

Deixe um comentário

A entropia da instituição


Foi no dia do lançamento do O que eles estão falando da igreja; conversávamos, os autores que iam chegando, ao redor de uma mesa da cantina do Mackenzie e eu fiz uma das minhas intervenções usuais contra a instituição. Imediatamente, com doses iguais convicção e provocação, o Alessandro Rocha (que eu havia conhecido naquele momento) reagiu apaixonadamente:

– Mas o que é você está dizendo, Brabo? Até parece que você não sabe que a Bacia é uma igreja! Já faz algum tempo que venho pensando em escrever sobre isso, que a Bacia das Almas do Paulo Brabo é uma instituição e que é sem dúvida uma igreja.

E com essa verdade despiu-me ali mesmo, embora tenha tido a gentileza de não delatar-me diante do auditório quando “compomos a mesa” um ao lado do outro alguns minutos mais tarde.

Fazendo isso, o Alessandro (que de resto, e inclusive por isso, descobri naquele dia ser um cara absolutamente notável) abriu uma ferida que venho tentando tratar pelo menos desde meados de 2007. Em retrospecto, foi justamente a convicção de que estava criando uma igrejinha que me fez recolher deste sáite a caixa de comentários, para evitar (ou pelo menos retardar) a ilusão de que formávamos aqui alguma espécie de “comunidade”.

Embora exista oficialmente desde 2004, a Bacia não tomou fôlego até o dia em que fomos encontrados e levados a sério pelo Volney Faustini, isso talvez em algum momento de 2005. Nesse intervalo escrevi protegido e abençoado pela convicção de saber: publico “e ninguém lê” (como me disse naquela época minha irmã Alice, para me incentivar).

Leia o resto deste post »

Deixe um comentário

Sucesso – Rubem Alves


Texto de Rubem Alves publicado originalmente na Folha de S.Paulo

FIZERAM UMA enquete entre pessoas que, a seu juízo, tiveram sucesso, eu entre elas. Queriam descobrir o segredo. Eram seis perguntas:

1) Se tivesse que definir sua história profissional em três palavras, quais seriam?
Um jovem me perguntou: como planejei a minha vida para chegar aonde cheguei? Respondi: cheguei aonde cheguei porque tudo o que planejei deu errado. A primeira palavra, então, seria “acidente”.
Depois, há de se ter um dom, coisa que não se faz, mas se recebe dos deuses. Quis muito ser pianista. Fracassei porque me faltava o dom. Já vi muitas promessas em livros de autoajuda do tipo “você está destinado ao sucesso…”. Isso é mentira. O querer nada pode sem o dom.
Finalmente, é preciso trabalhar.

2) Quais diferenciais uma pessoa deve possuir para conquistar o sucesso em sua profissão?
Não gosto dessa palavra “sucesso”. O que é sucesso? Vender um milhão de livros? Muitos livros medíocres são vendidos aos milhões, enquanto outros livros geniais não vendem uma única edição.
Muitos sucessos acontecem por acidente, trapaça ou malandragem. Ser eleito deputado ou senador -isso é sucesso?
Não se aprisionar ao costumeiro. Uma mulher que não conheço me enviou um presente, um quadro bordado em ponto cruz com as palavras “Deus abençoe essa bagunça”… Nietzsche nos aconselhou a construir nossas casas nas encostas do vulcão Vesúvio… Curiosidade.

3) Você deve ter acompanhado muitas pessoas que atingiram um reconhecimento em sua carreira, mas que, em pouco tempo, acabaram esquecidas. Quais os cuidados que um profissional deve tomar para que isso não ocorra?
Isso nunca me passou pela cabeça… Eu riria de uma pessoa bem-sucedida que se preocupasse com isso. Acho que essa preocupação é própria de pessoas narcisistas. E eu desprezo os narcisistas… Um conselho maroto, de bufão: “Esforce-se para aparecer na “Caras”. Com seu rosto sorridente lá, você não será esquecido…

4) Que ações e atitudes você tomou em sua vida e que, na sua opinião, foram determinantes para o sucesso em sua carreira?
Uma das minhas características que em nada ajudam o sucesso foi a “rebelião”. Fui um rebelde na religião, um rebelde na psicanálise, um rebelde na esquerda, um rebelde na educação. “Em cada chegada, eu sou uma partida”, dizia Nietzsche. E Eliot: “Numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo…”. Acho que aqueles que gostam de mim têm esse traço comum: andam na direção contrária.

5) Já houve momentos em que você pensou em desistir? Em que pensou que nada daria certo? Se sim, o que você fez para superá-los e seguir em frente?
Sim. Cheguei a me candidatar a vendedor da “Enciclopédia Britânica” de casa em casa… Mas, repentinamente, o vento virou e encheu as minhas velas… É preciso estar atento à direção do vento…

6) Qual a lição mais importante que você teria para quem deseja afinar-se para o sucesso?
Não queira afinar-se para o sucesso. Não faça do sucesso o seu deus. Seja fiel a você mesmo. Se vier o tal de “sucesso”, melhor para você. Ou pior para você, nunca se sabe… Van Gogh foi um fracasso, nunca vendeu um quadro. Ele poderia ter se “afinado” para o sucesso -pintando quadros mais bonitinhos…

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: