Culpa, Sexo, Homossexualidade – Paul Tournier


Toda a culpa reprimida dá lugar à resposta agressiva.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU, p. 13)

Porque a verdadeira culpa é, principalmente, você não ousar ser você mesmo. É o medo do julgamento dos outros que nos impede de sermos nós mesmos, de nos mostrarmos tal como somos, de manifestarmos nossos gostos, desejos e convicções, de nos desenvolvermos, de nos expandirmos segundo a nossa própria natureza, livremente.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 16)

Assim, nós vemos crentes, teólogos e leigos de todas as igrejas e de todas as denominações, sobretudo as mais zelosas em socorrer os doentes, esmagá-los com testemunhos religiosos, proclamar com força o poder de Deus que sara os que confiam nele dando a entender ao doente que lhe falta fé. Ele já carrega uma falsa culpa por estar doente; agora, acrescenta uma outra, bem mais grave, a despeito de todos os cuidados e de todas as orações de que é objecto, a ideia de que ele não se cura, de que não é digno da graça de Deus, ou que qualquer proibição, qualquer pecado misterioso e desconhecido é um obstáculo a isto!

Você vêem como este problema é delicado. Há curas divinas; há curas miraculosas; há curas pela oração e pela fé. Os que tiveram esta experiência ou os que são testemunhas disso devem falar delas para a glória de Deus e para sustentar a esperança dos doentes.

Há pessoas que ultrapassam rapidamente as fronteiras da verdade em tais testemunhos; generalizam como se Deus curasse a todos que o invocam; e culpam todos que recorrem à medicina científica ou aos medicamentos, como se eles não fossem também dons de Deus.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; pp. 20,21)

Bem, se é verdade que no pano de fundo de toda doença há problemas existenciais e que a doença pode ser a expressão visível de um conflito psíquico ou espiritual, o paciente sente-se massacrado por uma suspeita insuportável. Devemos insistir, constantemente, que há tantos problemas existenciais nas pessoas saudáveis como nos doentes.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p.22)

A mesma frase bíblica pode produzir um choque salutar em uma lama e ferir outra.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 24)

Toda inferioridade é sentida como culpa.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 24)

Viver é escolher.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 29)

Eis aí o grande paradoxo que sempre encontramos em toda a Bíblia: o caminho doloroso da humilhação e da culpa, com todas as angústias e todas as revoltas contra Deus que elas suscitam! E precisamente o caminho que desemboca na estrada real da graça. Deus ama os que, em lugar de disfarçar o problema, o enfrentam até o confronto e a resistência. “Vi a Deus face a face, e a minha vida (nephesh, alma) foi salva” gritou Jacó. O resultado de tudo isto foi que Israel ficou coxo. Assim podemos ver que uma doença pode ser consequência de um combate espiritual.

Jacó teve a maior experiência que se pode ter: ele se tornou um homem novo, isto porque também Deus lhe deu um novo nome: Israel. Dessa forma, ele podia agora abordar o seu irmão com uma segurança que todos os seus presentes não lhe garantiram.a bênção de Deus. “Então Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço, e o beijou; e choraram” (Gn 33:4).

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 31)

É na contemplação que encontramos a hierarquia dos valores, uma distinção clara entre o que é primordial e o que é secundário ou até perigoso.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 32)

Quando abrimos os Evangelhos, vemos que Jesus Cristo, cujas responsabilidades eram bem maiores que as nossas, se mostra menos apressado que nós. Ele tinha tempo para falar com uma estrangeira que encontrou na beira de um poço (Jo 4:1-6). Ele tinha tempo de tirar férias com seus discípulos (Jo 13:5), tempo de admirar os lírios dos campos (Mt 6:28), ou um pôr-do-sol (Mt 16:2); de lavar os pés de seus discípulos (Jo 13:5); de responder, sem impaciência, às suas perguntas tolas (Jo 14:5-10). Ele tinha, sobretudo, tempo para se retirar nos desertos e orar (Lc 5:16), e de passar toda uma noite em oração antes de uma decisão importante (Lc 6:12).

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; pp. 32,33)

“Uma consciência pesada não precisa de acusador”, diz o provérbio.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 33)

JESUS

Jesus sabia também se descartar da multidão entusiasmada que queria enredá-lo em uma brilhante carreira pública (jo 6:15). Ele sabia mesmo recusar, com uma calma extraordinária, o pedido de uma mãe desolada, a mulher cananéia e não se desviar, por causa dela, do caminho que deus lhe havia traçado (Mt 15:22-28). Entretanto, quando ele descobriu a fé que a motivava, ele não hesitou em mudar de opinião e mostrar assim a sua verdadeira liberdade interior.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 33)

Sinto-me mal em estar tão sadio quando há tantos doentes; em ser feliz quando há tantos infelizes; em ter dinheiro quando tantos têm falta; de ter uma vocação interessante quando tantos suspiram sob o peso de um trabalho que detestam; e até mesmo de ter experimentado a mão de Deus e ter sido iluminado pela fé, enquanto tantos sofrem na angústia, no isolamento e na obscuridade.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 41)

Assim, a vida espiritual e o ministério espiritual, longe de tornar mais leve o fardo da culpa, aumentam ainda mais a carga. Além disso, não se trata, como em Jesus Cristo, do peso da culpa dos outros somente. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais experimentamos a sua graça e quanto mais experimentamos a sua graça, mais descobrimos faltas em nós mesmos que não distinguíamos antes, e mais sofremos por isso.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 45)

Nós temos sede de uma resposta divina, não somente para tal ou qual falta específica da qual nós nos reconhecemos culpados, mas por nossa própria condição humana. Porque é bem claro o inexorável drama de nossa natureza, que nos oprime: o facto de que o bem não teria sentido se não existisse o mal. Fidelidade, sem tentação de infidelidade, não é verdadeira fidelidade. Fé, sem tentação de dúvida, não é verdadeira fé. Pureza, sem tentação de impureza, não é verdadeira pureza.

Invocar nossos “complexos psicológicos” não nos liberta jamais da nossa consciência pesada.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 49)

SEXO

A sexualidade pode ser perfeitamente compreendida, como sendo divina e não diabólica, como é apresentada. Pode-se assumir, com toda a alma e com todo o espírito, uma visão mais saudável do amor sexual. Nem por isso chega-se a se dar a este amor aquela liberdade e plenitude que se desejaria. A pessoa não mais se acha culpada de possuir um instinto sexual, mas uma culpa mais subtil a atormenta: a de ser joguete de seus complexos e de inibições que ela não aprova; a culpa de se sentir tão contraditória em relação ao que pensa e na maneira como age.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 50)

HOMOSSEXUALIDADE

Pensem, por exemplo, na culpa do homossexual. Já lhe disseram muitas vezes que a sociedade é culpada de fazer pesar sobre ele um desprezo imerecido, pois trata-se de um acidente no seu desenvolvimento psicológico do qual ele não é responsável, como quando se quebra a perna e a fractura mal consolidada deixa uma pseudoartrose. Ele continua com um sentimento de culpa persistente, mesmo tentando encobri-la sob belas teorias platónicas; é culpável contrariar a ordem estabelecida da natureza.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 50)

Assim cada um de nós vê na Bíblia o que corresponde às suas ideias preconcebidas e a seus complexos.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 51)

Nós nos arriscamos sempre a ser influenciados por nossas disposições psicológicas na nossa interpretação da Bíblia. Somos sinceros no desejo de nos conduzir por Deus se pretendemos permanecer os únicos intérpretes da sua vontade?

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 52)

Eu acabo de ler em um jornal uma palavra de Simenon em resposta a um escritor amargurado. Este lhe havia dito: “Não esperando anda da vida, não se decepciona nunca!” – “É verdade”, concordou Simenon com um sorriso, “e não respirando, jamais se engole micróbios!”

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 58)

Mesmo assim, é lastimável que entre os fieis de todas as igrejas haja tantas pessoas infantis e tímidas, e tão poucos que são radiantes, vitoriosos e bem desenvolvidos. Mas qual a causa desta deformação no Cristianismo que, tão frequentemente, esmaga os homens em lugar de libertá-los?

Sentimo-nos responsáveis por este Cristianismo, culpados desta deformação da qual participamos, culpados de demonstrar tão mal o poder de Jesus Cristo. Certo, nós somos fracos; talvez sem culpa desta fraqueza; mas o apóstolo Paulo não disse que precisamente da nossa fraqueza deveria eclodir a força de Deus? (2 Co 12:10)

É perante Deus que nos sentimos culpados de não nos tornamos o que ele espera de nós, de nos deixarmos paralisar pelo medo, de nos deixarmos amoldar por nosso meio, petrificar pelo quotidiano, não ser nós mesmos; ser cópia dos outros em vez de tirar partido dos dons específicos que Deus nos confiou. Aqui eclode a oposição entre as falsas culpas sugeridas pela sociedade e a responsabilidade pessoal diante de Deus. Um poeta me disse que não consegue escrever seus poemas sem um sentimento de culpa, porque se sente criticado por perder o seu tempo a rabiscar um papel em vez de ganhar a sua vida. Entretanto, ele sente uma culpa meio confusa, porém bem mais autêntica, em esconder o talento que lhe foi confiado (Mt 25:18).

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 60)

Conversei recentemente com um filósofo francês. Falei-lhe que a covardia me parecia um dos pecados mais generalizados e menos conscientes. “Talvez isto explique porque a coragem foi colocada pelos antigos lá em cima na hierarquia das virtudes”, disse ele.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 61)

JESUS

Fico sempre impressionado com a inabalável fidelidade que Jesus manteve para com os seus discípulos. Ele os escolheu sob inspiração de Deus (Jo 15:15,16). Não compreenderam muita coisa do que lhes disse, fizeram-lhe perguntas tolas, mostraram-se ambiciosos e covardes, mas ele continuou a ser-lhes fiel, a contar com eles, e de colocar-lhes nas mãos todo o arremate do seu ministério na terra (Mt 28:19,20).

A fuga caracteriza a nossa vida diária. Todos nós fugimos a todo momento, no silêncio ou na tagarelice, na inércia ou no tédio, nos prazeres da mesa ou nos da biblioteca, na leitura de um jornal ou no tricô, no desporto ou na poltrona, nas palavras espirituosas ou nas discussões ociosas (2 Tm 2:23). Nós nos escondemos atrás de um regulamento oficial, para “cobrir nossa responsabilidade”, quer dizer, proteger-nos contra a culpa, e esta fuga é ainda mais culposa. Nós nos escondemos tanto na cólera, quanto na doçura, na auto-suficiência ou na modéstia, no sentimentalismo ou na agressividade, no conformismo ou na boémia, na crise de nervos ou no autocontrole, na doença ou no estoicismo.

Ser fiel a si próprio é ser íntegro consigo mesmo em todas as circunstâncias, diante de qualquer interlocutor. Nós nos calamos sobre as nossas convicções mais profundas, ou sobre as dúvidas que surgem inevitavelmente. Nós velamos nossos sentimentos ou os manifestamos mais ardentes do que eles são. Ser fiel a si próprio é ser natural, espontâneo, sem medo do julgamento dos outros.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 63)

JESUS

A manifestação dos sentimentos dá lugar, também, a culpas contraditórias. Há muita gente que tem vergonha de chorar. Há famílias onde chorar é considerado uma vergonha, como também qualquer explosão de alegria. Tive pacientes que me confessaram ter hesitado longamente em me procurar com medo de chorar em meu consultório. Entretanto Jesus chorou abertamente quando se aproximou do túmulo de seu amigo Lázaro (Jo 11:35), se bem que ele havia dito com a mesma franqueza, ao saber da morte do seu amigo, que ele se regozijava por não ter estado lá (Jo 11:15).

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; pp. 63,64)

Contudo não é suficiente escutar a Deus, é necessário obedecê-lo.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 64)

O sofrimento não conhece fronteiras, quer dizer, o sofrimento vivo, o sofrimento humano, da pessoa inteira. Nossa vocação é a de responder a este sofrimento. Nós temos uma missão para com o nosso próximo, e não podemos negligenciá-la sem um vivo sentimento de culpa. Mas todos sentimos que a nossa tarefa é mais ampla com definições maiores, e nós experimentamos também uma culpa por nos esquivarmos disso.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 66)

Abram os olhos! Percebam esta multidão imensa de pessoas feridas, angustiadas, esmagadas, carregadas de culpas secretas, verdadeiras ou falsas, precisas ou difusas; há até uma espécie de culpa em existir, bem mais frequente do que se pensa.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 67)

Um sentimento de “culpa funcional” é o que resulta da sugestão social, do medo dos tabus, do medo da perda do amor de outrem. Um sentimento de “culpa-valor” resulta de valores próprios e da consciência clara de ter violado um padrão original, e é um autojulgamento feito com liberdade. Haveria então uma oposição completa entre estes dois mecanismos geradores de culpa, um agindo por sugestão social, outro por convicção moral. Odier preparou cuidadosamente tabelas que guiassem o diagnóstico entre estas duas ordens de fenómeno.

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 72)

Portal Evangélico

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