O declínio da cristandade e o fim da história


Nos últimos 50 anos muita coisa tem mudado no mundo ocidental. Toda sorte de reviravoltas sociais, políticas, econômicas, demográficas e filosóficas tem ocorrido, e como resultado a igreja se vê numa situação nova e pouco familiar. Nesse novo cenário a posição da igreja é de crescente marginalidade, tendo deixado de exercer o poder e a influência que já teve sobre a sociedade ocidental. Não só está a cada dia mais debilitada; a igreja está também cada vez menos interessante para o mundo ocidental. Impotência crescente alia-se a crescente irrelevância.

O teólogo alemão Karl Rahner reconheceu esse cenário de transição muito antes do que muitos na América do Norte. Rahner entendeu que o cristianismo tradicional socialmente constituído logo subsistiria como mero resquício do que era. Isso não é resultado de algum ato divino, tampouco a influência de alguma força sinistra (ou do declínio de conversões genuínas). Ao contrário, é o resultado natural do desaparecimento das pré-condições que produziram essa manifestação particular de fé e de cristianismo. Porque, afirma Rahner, “o antigo caráter homogeneamente cristão da sociedade era o resultado de e elemento constitutivo da unidade e da homogeneidade da sociedade secular como um todo”. A sociedade mudou, e a igreja também vai mudar. As coisas deixarão de existir como existiam antes.

Quinze anos mais tarde, Stanleu Hauerwas e William Willimon reconheceram essa situação nos Estados Unidos e anunciaram que a cristandade havia chegado ao fim. Com um toque de ironia, argumentaram que a cristandade havia se encerrado oficialmente certa noite de 1963 quando o cinema Fox, de Greenville, Carolina do Norte, abriu na noite de domingo. Desde aquele tempo os cristãos tem sido despertos cada vez mais para o fato de que o mundo não é mais “nosso mundo”. Essa, no entanto, é ocasião que Hauerwas e Willimon enxergam como motivo de celebração. O declínio da cristandade abriu a porta para modalidades novas e empolgantes de se viver o cristianismo.

À medida em que a homogeneidade da cristandade tem sido substituída por um torvelinho de pluralidade, à medida em que as metanarrativas tem sido descartadas em favor de novos tribalismos, à medida em que as certezas tem sido empurradas para as margens pelo ceticismo e pelo relativismo, vai ficando difícil dar um nome ao império que se levantou no lugar da cristandade. Em vez de um único império, parece que há milhares de impérios espiralando em conjunto, e que cada indivíduo tornou-se um imperador. Na tentativa de encontrar um rótulo para esse cenário muitos tem-no descrito como a transição do modernismo para o pós-modernismo. Em meio a essas mudanças, é-nos dito que foi a diversidade que triunfou, não uma única filosofia, religião, ideologia ou visão de mundo.

Essa abordagem, no entanto, pode mostrar-se um tanto ingênua. No mesmo ano em que Hauerwas e Willimon celebravam o fim da cristandade, Francis Fukuyama (na época diretor da área de planejamento de políticas do Departamento de Estado norte-americano) anunciava o fim da história. A História, no sentido hegeliano de humanidade em busca de uma forma de sociedade que viesse ao encontro de seus anseios mais profundos e fundamentais, teria chegado ao fim. Fukuyama saudava as democracias liberais ocidentais e o capitalismo de livre-mercado como o telos/culminação da evolução ideológica da humanidade. A queda do comunismo e a derrota do fascismo, aliados à impotência das religiões organizadas e do nacionalismo, sinalizavam o esgotamento total de todas as alternativas sistêmicas. Depois da queda da cristandade, em meio ao torvelinho de pluralidade do mundo pós-moderno, é a ideologia da democracia liberal, fundamentada no capitalismo de livre-mercado, que reina suprema.

Bacia das almas

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