Que depressão insuportável


Ora, mesmo sabendo de todas essas variáveis, se eu tivesse que dar um conselho geral a todos os deprimidos, independentemente da causa da depressão, eu diria o seguinte:

1. Faça de qualquer depressão um bem, simplesmente não gerando associação entre o estado de depressão a qualquer forma de culpa moral. E, caso tenha havido culpa no nascedouro do estado, receba o perdão, creia, e desmoralize a depressão. Ou seja: se ela permanecer, já não será como tristeza para a morte, que é fruto da culpa; mas sim como tristeza para a vida, e que fará melhor e mais doce o coração.

2. Não se fixe na depressão. Deixe que ela se vire sozinha. Dar atenção à depressão é como fazer carinho na tristeza como vício. Portanto, não a negue, mas não a sente no trono de seu ser como senhora de seus sentimentos.

3. Busque a natureza, o ar livre, a praia, a piscina, o sol, o pé no chão, a grama, a terra, as fontes de águas, as atividades físicas, o toque, o amor, o sexo, a companhia de amigos, os papos diferentes, e, sobretudo, descanse no amor de Deus. Sei que uma pessoa deprimida quer se prender dentro do quarto, fechar a janela e se enterrar na escuridão, noite e dia. No entanto, pela minha experiência— tanto em mim mesmo como observando a praticidade deste conselho em outros—, verifico que a natureza e a volta aos elementos básicos da criação têm um poder enorme na cura e restauração das energias psíquicas e vitais, fazendo com que pelo menos 50% do problema comece a se esvair.

4. Não fique com pena de você. Depressão ama autopiedade. Olhe para a depressão como um estado criativo, e não como algo paralisante. Sempre tratei a depressão com criatividade. Quando me deprimi em razão da violação da “lei interior” (conforme falei acima), escrevi o livro “Oração para Viver e Morrer”. Quando os céus caíram sobre minha cabeça (98-99), escrevi “Nephilim”, e, logo depois, “Tábuas de Eva”. Quando mudei para Copacabana em 2001 e me senti deprimido por muitas coisas (ainda reflexo do desabamento celestial de 98-99), escrevi “O Enigma da Graça”. E quando meu filho partiu, mergulhei de cabeça aqui no site e escrevi … escrevi… escrevi…

5. Leia os salmos. Todos eles. E observe como alegria e tristeza têm o mesmo poder: gerar orações. A alegria produz ações de graça, e a depressão produz a expansão da comunhão com Deus, produzindo orações de verdade visceral. Os salmos são esses relatos existenciais; e neles a gente vê que tristeza e alegria são a mesma coisa no que diz respeito a poderem conviver com o melhor da espiritualidade humana.

6. Tome os remédios próprios sem culpa e sem julgamento moral e espiritual acerca do estado para o qual eles são receitados. Nosso problema é que a depressão não tem descanso numa alma cristã, especialmente porque a pessoa chega na igreja e ouve as promessas de que crente não fica deprimido, e, assim, mergulha na depressão da depressão. Desse modo, depressão de crente é sempre, no mínimo, depressão ao quadrado: a coisa em si e a culpa de se estar sentindo a coisa, o que gera uma segunda depressão e fixa a primeira. No entanto, a depressão do crente tem também a possibilidade de ser elevada à raiz cúbica: a depressão, a culpa da depressão, e o diabo da depressão. Essa equação é a pior de todas, e é muito comum nos crentes, neuróticos que são em relação a tudo, especialmente no que diz respeito a toda sorte de tristeza.

Aprender a lidar com a depressão é um exercício de sabedoria espiritual, especialmente para quem vive massacrado pelos “demônios” da urbanidade e da chamada vida pós-moderna.

Use a depressão. Não deixe que ela use você. E não fique se perguntando, quando você estiver se sentindo surpreendentemente bem: “Ei, onde está a depressão?”

Você deve saber, no entanto, que quem tem depressão de natureza química ou neurológica, deverá tomar medicação com o mesmo carinho e simplicidade prática com a qual um diabético toma insulina.

E não fique pedindo cura a Deus para a depressão, pois isso deprime muito mais. Se Deus curar você disso, agradeça; mas se não houver nenhuma cura milagrosa, não se deprima, e não se julgue moralmente por isto; tipo: “Vai ver que tem algo errado em mim”.

Entregue a sua depressão ao Senhor, confie Nele, e o mais Ele fará!

Sugiro-lhe também que procure a medicina ortomolecular e que também faça exames de mineralogia. Muitas vezes quando se detecta quais são os elementos químicos que estão faltando no cérebro, e se faz suplementação deles por via médica, as depressões vão desaparecendo à medida que a química orgânica vai se reequilibrando. Tenho visto pessoas que sofriam de depressão crônica por décadas ficarem completamente boas de seus desconfortos apenas fazendo reposição de elementos químicos que faltavam no corpo.

Espero ter sido útil de algum modo. E se desejar, entre no “Divã com Caio” pra gente poder conversar mais.

Receba meu carinho!

Nele, que confessou Sua tristeza no dia de Sua dor,

Caio

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