Minha deusa


Todo mundo sabe que sou ateu. Recebi a graça de NÃO crer. Adoro ser ateu e viver sem o peso de um deus a me assombrar, vigiar e julgar. Sem entidades metafísicas a quem dever satisfações, e sem nenhuma expectativa a respeito do vasto infinito, portanto. Mas respeito quem acredita e, sinceramente, não meço ou julgo as pessoas pelo fato de elas acreditarem ou não em Deus. Isso não tem a menor importância pra mim. Não mesmo. Até porque, na minha experiência e observação, concluí que o que se chama de “deus” varia muito de pessoa para pessoa.

Há os que crêem no Deus bíblico (com D maiúsculo), cheio de dogmas, senões e restrições (o bom e velho “senhor de barbas”, magnânimo, mas inegavelmente autoritário, paternal e meio ranzinza). Há os que crêem numa “energia” cósmica, um princípio organizador e amoral que perpassa tudo (o deus – com d minúsculo – dos budistas, taoistas, Fritoj Capra e simpatizantes). Há os que crêem simplesmente em “alguma coisa”, e argumentam “não é possível que a vida se resuma a nascer, procriar e morrer, deve haver algo superior, um sentido para tudo isso”. No geral, as pessoas têm uma ideia muito vaga daquilo que elas acreditam ser “deus”.

Pois bem, ontem de manhã, na minha corrida matinal pela praia de Ipanema, divaguei sobre o que seria – para mim! – uma imagem de um deus, levando-se em conta apenas os sinais visíveis e perceptíveis por Ele emitidos (pelo menos os que Eu – na minha infinitaaaaaa ignorância – consigo captar). Para começo de conversa, meu deus seria Ela. Óbvio. Deus nos emite todos os sinais possíveis de que ele, se tiver um sexo, é o feminino. As mulheres são mais bonitas, compreensivas, doces e intuitivas que os homens. São mais bem adaptadas à natureza e vivem mais. Superioras mesmo. De que outra maneira aceitar que elas é que foram incumbidas de carregar os bebês na barriga?

Além de mulher, meu deus com certeza é uma esportista. Uma malhadora, provavelmente uma praticante de triatlo, por exemplo. Ou uma jogadora de vôlei de praia. Basta ler as revistas semanais (mesmo as “sérias”) para comprovar que a prática de esportes e exercícios prolonga a vida e nos aproxima daquilo que chamamos “viver bem”. Ora, o que de melhor pode um deus (ou uma deusa) nos oferecer do que “viver bem”? Passar por essa montanha-russa de sofrimentos e alegrias que é a vida, com uma sensação de que podemos fumar um cigarrinho no fim de tudo e comentar com um compadre ao lado: “Valeu a pena”. Pode se exigir mais de um deus? Minha deusa é uma atleta.

Pelo que se vê, deus (a minha Deusa) não está muito preocupada com questões morais e éticas. Ele (ela) não faz muita questão de punir ladrões, salafrários e políticos corruptos. Se não fosse a nossa limitada e precária lei humana, a maioria desses velhacos sobreviveria sem maiores problemas até a velhice, certo? Então minha deusa é uma atleta descompromissada e meio omissa. E pra finalizar, claro, negra. Se Deusa não fosse negra, por que incumbiria Miles Davies, Jimi Hendrix e Stevie Wonder de produzir música tão sublime? E Pelé de jogar um futebol tão divino?

Talvez minha Deusa seja mesmo um pouco surda – como Beethoven – e cega – como Ray Charles – pra não ter de ouvir e ler tanta besteira que se diz e se escreve sobre ela. Isso, a imagem do meu deus é uma atleta negra descompromissada e meio omissa, um pouco surda e cega, razão pela qual usa um par de óculos escuros Ray-Ban e headphones que conectam por um fio seus ouvidos a um iPod (em que, naturalmente, ela ouve Kind Of Blue, do Miles Davis). E de repente, quando menos espero, minha deusa passa em carne e osso correndo pela ciclovia de Ipanema. Sou mesmo um iluminado.

Por Tony Bellotto

Fonte: Veja

Pavablog

 

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