O filósofo Kierkegaard e a destruição de preconceitos


O brilhante filósofo Kierkegaard tinha uma ligação estreita com o pensamento de Jesus, mas era crítico da religiosi­dade asfixiante (Durant, 1996). Querendo estimular a arte de pensar e provocar a mente das pessoas para dissipar preconcei­tos, certa vez propôs uma complexa questão.

Disse que existem duas pessoas: uma adorando um deus fal­so, mas com o coração verdadeiro; outra adorando o Deus ver­dadeiro, mas com o coração falso. Após fazer essa descrição, per­guntou: Qual delas o Deus verdadeiro ouve?

Fiz essa pergunta a várias pessoas das mais diversas religiões. Todas me responderam que Deus ouviria quem tem um coração verdadeiro. E continuaram: se o coração é falso, superficial, si­mulador, de nada adianta adorar o Deus verdadeiro. Ele consi­derará essa adoração uma maquiagem exterior sem correspon­dência com a realidade interna.

Quando os índios se dobram com humildade e sinceridade diante de uma rocha ou do Sol, será que não são ouvidos por Deus? Quem pode afirmar que Deus não os escuta, não entende sua linguagem? Quando um africano de uma tribo primitiva se prostra diante das chamas do fogo, reverenciando-o com since­ridade, será que não é ouvido pelo Altíssimo?

Não sou teólogo, não posso entrar na seara da fé. Mas posso entrar no campo do pensamento filosófico e psicológico. Para mim, quando Jesus juntou as palavras “Pai” e “Nosso” na única oração que ensinou claramente, quis dizer, tanto do ponto de vista psicológico quanto do filosófico, que Deus não é proprie­dade humana, nem de uma religião ou de um povo, ainda que essa religião ou esse povo esteja em maior sintonia com sua von­tade do que outros.

Em tempos de tantas guerras e discriminações religiosas que envolvem o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, eu gostaria de novamente enfatizar: Deus é pela humanidade e para a huma­nidade. As discriminações contra os muçulmanos estão infeliz­mente aflorando depois do 11 de setembro de 2001. O anti-se­mitismo vem se expandindo em diversas sociedades. As socie­dades estão se tornando um barril de tensões, prestes a explodir. O terrorismo, em suas diversas formas, e a ditadura do consumismo e da estética estão criando raízes.

Uma pessoa que tem maturidade intelectual e emocional não deve abrir mão do que pensa, mas deve dar aos outros o di­reito de pensarem contrariamente às suas idéias. Não deve dei­xar de falar sobre as verdades em que acredita a respeito de Deus e de sua religião, mas deve aprender a expor, e não impor, suas idéias. Quem impõe suas idéias, ainda que estas sejam excelen­tes, é escravo, e não livre; destrói e não cura. É intelectualmente uma criança, e não um adulto maduro.

Se não nos apaixonarmos pela humanidade, se não lutarmos pela espécie humana, se não incluirmos, tolerarmos e amarmos, estaremos fora dos padrões do Pai-Nosso. Certa vez Jesus falou de dois homens que se dirigiam a Deus. Um era um brilhante re­ligioso, tinha um currículo espiritual invejável, jejuava, orava freqüentemente e dava ofertas para sua religião. O outro era um miserável, religiosamente deplorável, saturado de erros. Além disso, não sabia orar e reverenciar Deus. Apenas batia no peito pedindo compaixão diante de sua miserabilidade.

Após esse relato, Jesus propôs uma questão mais complexa do que a do ilustre Kierkegaard. Qual dos dois homens dessa perturbadora parábola Deus ouviu? Uma pesquisa mundial pro­vavelmente seria unânime em apontar o religioso, por ser mais ético, sensato e coerente. Mas, como já disse, nós analisamos comportamentos, Deus sonda pensamentos, avalia a consciência existencial e as intenções subliminares.

Para perplexidade dos ouvintes, Jesus afirmou que Deus apro­vou e exaltou o miserável. Essa avaliação não parece loucura? É como se um professor desse a nota máxima a um aluno que errou a prova inteira e zero para quem acertou todas as questões.

O religioso da parábola de Jesus não tinha contato com as próprias fragilidades, inseguranças, incoerências e estupidez. Ao contrário, ele se auto-exaltava, considerando-se acima dos mor­tais. Certamente era mais um que excluía os outros por não se encaixarem nos seus dogmas nem nos preceitos de sua religião. Aos olhos de Jesus, ele adorava o Deus verdadeiro, mas seu cora­ção era falso.

Por outro lado, o miserável tinha consciência de suas falhas, coragem para olhar no espelho da própria alma e assumir sua arrogância, agressividade e fragilidade. Porque era fiel à sua consciência, foi honesto no único lugar em que não se admite ser falso: dentro de si mesmo. Assim, ele tocou o coração do Deus do Pai-Nosso.

Para Jesus, seu Pai não é uma figura mitológica ou uma re­presentação do imaginário humano. Ele é concreto, real e pro­cura pessoas não artificiais para construir uma história real e não falsa. Ele cicatriza as feridas dos desprezados, aproxima os ricos dos carentes, revela que os puritanos podem ser mais im­puros do que os que são considerados escórias da sociedade.

Augusto Cury

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