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O que eles estão pensando da igreja

Desde a publicação de A bacia das almas, e em grande parte devido a um subtítulo nada sutil, meu nome tem sido associado àqueles que defendem um cristianismo sem igreja, uma espiritualidade comprometida com Jesus e descomprometida com a religião. Sou contado entre os que sustentam que uma manifestação institucional de igreja não foi de modo algum prevista por Jesus ou pelos autores do Novo Testamento, e que por certo não receberia a sanção deles. Aparentemente acredito que um cristianismo secular, desigrejado e informal, nos moldes das últimas inquietações de Bonhoeffer, descreve adequadamente não apenas a vocação cristã do vigésimo-primeiro século, mas também a do primeiro.

No que me diz respeito, essa é uma avaliação muito justa e equilibrada da minha disposição e, ao que tudo indica, não apenas da minha. Porém é natural que uma crítica a um sistema estabelecido não se levante em impunidade; a aparente proliferação de gente que se declara apaixonada pelas prioridades de Jesus e desinteressada nas prioridades da igreja formal, acompanhada da proliferação daqueles dispostos a defender esses cristãos seculares, vem despertando uma pequena mas inflamada Contra-Reforma.

Para discordar dos que discordam da vocação neotestamentária da instituição tem se levantado apologistas em todos os lados do espectro teológico. São cristãos que baseiam sua defesa da instituição no mérito de que amam a igreja e a comunhão dos santos; também tem em comum crerem que a igreja é uma organização formal representada por unidades administrativas que promovem encontros regulares e atividades autocentradas, e que nesses encontros e atividades consiste a comunhão dos santos. Fica claro que compartilhamos do mesmo mérito, mas não da mesma crença.

Quando fui convidado a contribuir com um capítulo para a coletânea O que eles estão falando da igreja, minha primeira reação foi responder que acreditava não ter mais qualquer contribuição para oferecer a essa discussão. Mas a vaidade e o amor pela exatidão (que são, evidentemente, nomes diferentes para uma mesma coisa) levaram-me a reconsiderar o direito de ficar calado. Afinal de contas, eles estão falando que a igreja é a instituição.

Escrevi três mil palavras e dei ao conjunto o título presunçoso e enganosamente acadêmico de Instituições, disciplinas e a geografia da devoção. Quem me conhece saberá prever a maior parte do que digo ali, embora não tenha como saber que fundamento meu argumento numa leitura das intransigências de Paulo e das revoluções do livro de Atos.

Se obrigado, no entanto, posso resumir a coisa toda em duas frases extraídas do próprio texto.

Em sua obsessão com a formalidade, ela [a igreja institucional] essencialmente impede a comunhão dos santos.

E, como se não bastasse:

Lutar contra a instituição é lutar contra a própria carne.

Na defesa pela igreja institucional, mais de uma pessoa já me ofereceu o seguinte apelo: “não é certo falar mal da igreja; a igreja pode ser uma prostituta, mas ela é nossa mãe”. Ao que aprendi depressa a responder, se é assim cabe aos seus filhos tirá-la dessa vida.

***

O que eles estão falando da igreja será lançado às 20h00 desta sexta-feira, 3 de dezembro, no auditório João Calvino da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Rua da Consolação, 930, São Paulo – SP), com a inquietante presença dos autores.

Bacia das Almas

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Nenhum de nós

Ninguém neste recinto, incluindo o seu pastor, acredita na fé cristã. Nenhum de nós daria a outra face. Nenhum de nós venderia tudo que tem e daria aos pobres. Nenhum de nós daria o casaco a um sujeito que tivesse tirado nosso sobretudo. Cada um de nós acumula todo o tesouro que consegue. Não praticamos a religião cristã e não temos qualquer intenção de praticá-la. Logo, não acreditamos nela. Eu portanto me desligo, e aconselho vocês a pararem de mentir e se dispersarem.

Sinclair Lewis, em Elmer Gantry (1927)

Bacia das Almas

 

 

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Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais

Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler For the soul of the people: Protestant protest against Hitler [Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler], da historiadora Victoria Barnett. Pus de lado esta semana a última página do livro, e posso dizer que encontrei o que não procurava – talvez justamente porque (e eis a necessária reviravolta) não encontrei o que procurava.

O título do livro é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como a autora vai deixando agonizantemente claro, não houve protesto protestante contra Hitler. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.

O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto individual de protestantes contra Hitler. A instituição essencialmente nada fez, mas naquele mais vigiado, preconceituoso, intolerante e opressor dos regimes levantaram-se uns poucos heróis solitários que, precisamente como Bonhoeffer, colocaram-se publicamente em pé diante da máquina simplesmente porque não concordavam com a direção em que ela estava indo, e por causa de quem estava sendo esmagado no caminho. A maioria desses, precisamente como Bonhoeffer, não escapou com vida para testemunhar a primavera de 1945, quando o planeta despedaçado acordou perplexo para o fim da inocência mundial.

É uma narrativa que confirma da forma mais excruciante o que venho intuindo há muito tempo (“repita comigo: as instituições não existem, só existem pessoas“) sobre a insuficiência das instituições e a facilidade com que podem tornar-se carimbos coletivos que o sistema usa para endossar a injustiça. Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime – ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.

A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação – pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento – e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.

Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem “não-ariana” abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados “Cristãos Germânicos”, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.

Diante do ensurdecedor silêncio da igreja perante esses procedimentos, uma facção dela decidiu que era necessário postar-se publicamente contra a onda de insanidade. Esses, mais ou menos liderados por Bonhoeffer, deram a si mesmos o nome de Igreja Confessante, porque criam que confessar o nome/pessoa de Jesus implicava em manifestar-se publicamente contra toda forma de injustiça, mesmo diante de riscos institucionais e pessoais.

O livro de Barnett explica como essas três facções da igreja alemã (a minoria dos Cristãos Germânicos, a maioria conservadora/cautelosa e a minoria confessante) combateram umas com as outras durante o regime nazista de modo a, no fim das contas, se sujeitarem mutuamente ao mais completo silêncio diante das injustiças de Hitler.

Parte essencial da história, na verdade, está em que logo ficou claro que havia diferenças irreconciliáveis de convicção e de estratégia entre moderados e radicais mesmo dentro da Igreja Confessante. Essa polarização apenas se acentuou com o cerrar do cerco nazista, até que aqueles dispostos ao martírio entenderam que mesmo o movimento confessante era insuficiente para se proferir no meio do caos a Palavra, e partiram para a carreira solo no acolhimento de perseguidos ou no terrorismo secular. Entenderam que se haveria uma igreja contra a qual as portas do inferno não resistiriam, essa se manifestaria através de indivíduos e não da instituição. Porém essa sua distração com a fé no sistema custou muito para eles mesmos e para outros: quando esses poucos caras – a dissidência da dissidência – sacaram que não podiam e não deviam contar com as soluções institucionais, era essencialmente tarde demais.

O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com “o trono e o altar”. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a “outro domínio” que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil – numa palavra, protesto – não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.

Essa sacrílega cumplicidade entre igreja e estado tem, evidentemente, raízes ainda mais antigas do que a Reforma, que apenas inseriu na equação o fator competição [à Igreja Católica]. Em sua manifestação original o movimento cristão era apolítico, anti-imperialista e subversivo ao ponto da anarquia funcional, mas o sucesso espetacular da sistematização do cristianismo terminou por apagar por completo os efeitos dessa herança subversiva – até que, em Constantino, igreja e império se transformaram numa única e abominável coisa. Para o historiador cristão Eusébio, escrevendo no ano 336, o imperador Constantino (o primeiro a conceder favor estatal à fé cristã) representava o modelo do governante espiritual, um “amigo de Deus” que “arranja seu governo terreno de acordo com o padrão do original divino”. Para Eusébio, Constantino deveria ser visto pelos crentes como “nosso imperador divinamente favorecido”, que havia recebido “como que uma transcrição da soberania divina” a fim de conduzir “em imitação do próprio Deus a administração dos negócios do mundo”1 – nada muito diferente do que cristãos alemães opinariam séculos mais tarde a respeito de Hitler.

Nessa única transação com o Poder o movimento cristão passava de frágil a influente, de subversivo a inofensivo, de marginal a detentor do status quo, de incendiário a bombeiro, de incômoda ameaça aos poderes e potestades deste mundo a seu mais valioso selo de confirmação. As tremendas desventuras, grandes vergonhas e pequenas ousadias encenadas pela igreja evangélica alemã durante o regime nazista apenas demonstram o quanto há de contemporâneo e de diabólico nessa aliança, mesmo em regimes que professam oficialmente divisão entre igreja e estado.

É uma história que demonstra muito claramente que o problema não reside na separação entre igreja e estado, porque enquanto permanece como instituição a igreja é obviamente inseparável dos governos deste mundo. Uma instituição é basicamente uma entidade coletiva que tem algo a perder (mesmo que seja apenas sua própria autoridade), e o movimento cristão é por definição bíblica o movimento dos desbravadores do reino – isto é, o domínio em permanente insurreição dos que confessam não ter nada a perder, e sustentam ao mesmo tempo que o único modo de confessar isso é demonstrá-lo.

É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.

Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois – porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra. E se o drama da igreja alemã sob Hitler havia confirmado minhas piores suspeitas, nenhuma expectativa me havia preparado para o que veio em seguida.

continua…

Bacia das Almas

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História de um fazendeiro

Certo fazendeiro tinha dois filhos. Um dia o filho mais novo pediu ao pai a sua parte da herança, e dias depois recebeu dele o equivalente a metade do seu patrimônio. De posse do dinheiro, o rapaz partiu para uma terra distante, onde investiu todo o seu capital, aplicando-o criteriosamente em investimentos de baixo risco e elevado retorno. Em pouco tempo havia duplicado o seu patrimônio e vivia confortavelmente.

O filho mais velho, que trabalhava no campo, ficou sabendo da prosperidade do irmão e também exigiu do pai a sua parte da herança; em seguida partiu para outra terra distante, onde também enriqueceu.

Houve então uma grande fome naquela terra. Tendo dissipado tudo, o fazendeiro começou a passar necessidade. Sendo de idade avançada e sem forças para trabalhar, pediu aos vizinhos que lhe deixassem encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. Caindo em si, o homem disse:

– Quantos empregados dos meus filhos têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Vou ao encontro deles, e direi: “Meus filhos, estou sozinho e não tenho mais como me sustentar; tratem-me como um dos seus empregados”.

E saiu pelo caminho, decidido a encontrar em algum lugar um abraço. Em poucos dias estava morto, e não reviveu; estava perdido, e não foi achado.

Paulo Brabo

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Experiência capitalista

“HOJE EM DIA nenhum sistema religioso cristão bem-sucedido ousa acenar com promessas para a vida futura. Para serem ouvidos, incansáveis mensageiros evangélicos despejam em rádios e programas de televisão as mesmas esperanças de prosperidade financeira e pessoal oferecidas pelo capitalismo.
Uma felicidade que não seja para esta vida não interessa aparentemente a ninguém, mas a felicidade prometida para esta vida pode controlar quem quer que seja.”

Paulo Brabo em A Bacia das Almas

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