As imagens melancólicas, sensuais e voyeurísticas de um fotógrafo marginal


Por mais de 20 anos, a população de Kyjov, cidade da Morávia com pouco mais de 12 mil habitantes, acompanhou de longe um andarilho, maltrapilho e barbudo, que vagava pelas ruas da República Checa com câmeras fotográficas caseiras feitas de papelão e outros materiais improvisados. Miroslav Tichýbuscava em praças, parques, piscinas, estação rodoviária e outros locais públicos, seu objeto de desejo e obsessão: as formas femininas. Entre as décadas de 60 e 80, Tichý disparou de forma clandestina cerca de 90 fotos por dia. Depois seguia para sua casa, onde num laboratório improvisado imprimia as imagens que se espalhavam pelos cômodos.

Visto ora como excêntrico, ora como louco, a grande maioria de suas “modelos” não tinha conhecimento que estavam sendo fotografadas, e, outras, não acreditavam que as câmeras feitas de tubos de papelão eram reais, o que resultava em poses gratuitas. Muita gente pensava que ele só fazia de conta que fotografava quando o via escondido atrás de arbustos da cidade. A soma dessa experiência é um acervo gigantesco, que captura uma realidade sensual e onírica, de um artista pouco convencional. O que se vê são mulheres fotografadas em todos os ângulos, às vezes, em corpo nu, outras limitadas a pés, pernas, costas, nádegas.

Nascido em 1926, Tichý estudou pintura na Academia de Belas Artes, em Praga, logo após a Segunda Guerra Mundial. Considerado como um talentoso pintor e desenhista (influenciado por Picasso e osexpressionistas alemães), ele não concordava com o sistema político vigente na época, e, em 1948, quando o Partido Comunista Checo assumiu o controle do País, inaugurando mais de quatro décadas de ditadura, ele abandonou o mundo da arte oficial, e se aliou a um grupo de artistas que era constantemente ameaçado e vigiado pelo regime. Propenso a colapsos mentais desde a juventude, Tichý trabalhou ao lado de seus colegas até um episódio psicótico ocorrido pouco antes de uma exposição prevista em 1957, de onde retirou suas pinturas. Sua obra não foi exibida novamente até bem recentemente. Em 1960, começou a fotografar.

Ao longo dos anos, seu estilo de vida não-conformista, bem como  sua doença mental, o colocaram em apuros com as autoridades, resultando em períodos de confinamento em instituições psiquiátricas e a perda de seu estúdio em 1972. Apesar de nunca ter parado de produzir pinturas e desenhos, Tichý focou sua atenção na fotografia única e exclusivamente para satisfazer sua visão artística da essência feminina. Usava o dinheiro da pensão por invalidez para comprar filme, papel e químicos para revelação.

Em 1981, seu acervo pessoal, até então secreto, foi descoberto pelo vizinho e psiquiatra Roman Buxbaum, sobrinho de um médico de Kyjov que havia tratado dele em várias internações por problemas mentais. Buxbaum iniciou então um esforço para documentar e preservar as fotografias que já se deterioravam, além de produzir um documentário chamado “Tarzan aposentado” (2004), expressão originada da explicação que o próprio artista dava quando perguntavam o que ele fazia da vida.

Só há seis anos, depois de ganhar em 2004 o Prêmio da 1.ª Bienal de Arte Contemporânea de Sevilha, Tichý começou a ser conhecido fora de Kyjov. Não parou mais: museus de todo o mundo começaram a se interessar pelo excêntrico e recluso artista. Em 2010, o International Center of Photography (ICP), em Nova York, realizou a primeira mostra feita por um museu americano do fotógrafo Miroslav Tichý. Hoje, aos 84 anos, e quase cinco décadas depois de ter desistido de ser pintor, suas fotografias borradas, melancólicas, eróticas e voyeurísticas o levaram a ser reconhecido como artista. Em suas palavras: “O erro faz parte disso, e isso é a poesia”.

Blog da Cultura

 

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